A importância da construção civil na prevenção e eliminação de doenças no cenário pós pandemia Covid 19

A importância da construção civil na prevenção e eliminação de doenças no cenário pós pandemia Covid 19

Por Allan Lopes,
especialista em Sindrome do Edificio Enfermo,
fundador e diretor do HBC Healthy Building Certificate.


As construções são um fator importante em um cenário de pandemia. Vimos a Casa de Idosos Life Care Center em Kirkland, no estado de Washington como um dos focos iniciais de disseminação do vírus Covid 19, ou Corona Virus, nos Estados Unidos.
A ausência de ventilação natural, a baixa renovação do ar e processos de limpeza ineficientes contribuíram diretamente para a disseminação do vírus nesta localidade o que levou ao óbito de 37 seres humanos.
Ao longo do último mês vimos a movimentação de bilhões de pessoas saindo de seus locais de trabalho e estabelecendo escritórios em casa e tendo que enfrentar sem nenhuma preparação o caos de conciliar trabalho e produtividade com vida familiar, porque os locais de trabalho por sua concentração de pessoas e pelos mesmos motivos da casa de idosos eram locais potencialmente facilitadores da disseminação do coronavírus.
Aprendemos práticas domésticas básicas de higiene mas que consideramos culturalmente desconfortáveis como deixar os sapatos na entrada de casa e abrir as janelas para renovar o ar.
Entendemos que os espaços construídos interferem diretamente na saúde e bem estar humanos.
Porém as construções também interferem de forma indireta e talvez ainda mais importante na prevenção e mesmo eliminação de doenças.
Vimos que os casos de óbitos pelo vírus atual estavam ligados a idade, a outras doenças, a ausência de vitamina D e a um sistema imunológico fraco. Ou seja, precisamos de seres humanos mais fortes antes de uma pandemia, e não quando ela nos atinge. Esta é a verdadeira saída para se evitar mortes como as que vemos atualmente em um futuro, e absolutamente certo, novo evento deste tipo.
Mas os profissionais da construção civil não pensam suas obras como um veículo de saúde e bem estar. Na linha de frente de seus projetos estão localização, metragem, design e acabamento. O foco das construções é ela mesma e não a vida que ela abriga.
Há décadas a OMS já nos orienta a evitar construções que gerem a síndrome do edifício enfermo e as doenças provocadas pela edificação.
Naturalmente vários aspectos diretos desta abordagem foram incorporados às legislações como a proibição do uso de amianto em vários países e a manutenção de medidores de monóxido de carbono nos EUA. Mas nenhum esforço integrativo de união destes dois universos, a saúde humana e as construções, eram de fato incorporado pelos processos construtivos regulares no mundo.
Sabemos portanto que as construções possuem um papel importantíssimo na construção deste ser humano mais forte.
Sabemos que projetos que carecem de iluminação natural irão privar as pessoas de sintetizar a tão importante vitamina D.
Projetos de condicionamento de ar focados exclusivamente em ganho de eficiência energética diminuindo a renovação do ar são fórmulas perfeitas para a disseminação de vírus e bactérias pelo ar.
A qualidade química dos materiais de construção, limpeza e manutenção prediais e paisagísticos são fundamentais para manter um sistema imunológico alto.
O que nos traz a pergunta: de que forma todos os profissionais envolvidos na criação de uma edificação de qualquer natureza podem se atualizar e trazer para a frente de suas prioridades a vida e a saúde humanas, e serem agentes ativos e proativos na criação de uma geração de seres humanos saudáveis e aptos a enfrentarem com maior desenvoltura futuras pandemias?
O movimento conhecido como Biologia da construção tenta agregar em um só corpo de conhecimento todas estas distintas variáveis de qualidade de projetos, materiais, iluminação,
acústica e muitos outros fatores presentes nas nossas edificações e que possuem ação direta ou indireta na saúde humana.
De forma mais leiga este movimento vem sendo chamado de construções saudáveis e tem sido uma tendência crescente desde 2014 com a criação de entidades certificadoras como o Healthy Building Certificate, o FitWell e a certificação Well.
Até o momento da pandemia covid-19 a percepção da necessidade de incorporação dos conceitos promotores de saúde e bem estar nos projetos arquitetônicos era visto como um valor agregado, de alta qualidade, mas circunscrito a classe de conceitos e novas ideias e não
exatamente amalgamado como a alma e essência de cada construção.
Com a clareza desta íntima relação entre a vida humana e as condições proporcionadas pelas construções. A atualização através do aprendizado e consequente incorporação destes parâmetros de construção saudável na vida de todos os profissionais do espaço torna-se quesito fundamental e não apenas mais um valor agregado orientado a um nicho de mercado.
Arquitetos precisam entender como seus desenhos e soluções atendem não apenas a quesitos funcionais e estéticos mas também interferem em processos mentais, fisiológicos e dinâmico da vida das pessoas.
Engenheiros e construtores necessitam estar ciente da quantidade e qualidade de compostos químicos e físicos que são liberados por materiais de construção convencionais e sua relação com ciclos hormonais e de manutenção da homeostase, o equilíbrio dinâmico do corpo.
Designers de interiores são chamados a conhecer a relação físico química e psicológica que objetos, mobiliários, tintas e cores exercem sobre os usuários de um espaço, de bebês ainda no ventre de suas mães a idosos na clínica Life Care Center de Washington.
E a única solução que realmente se apresenta como viável é a educação e o aprendizado de como a vida humana de fato se organiza e interage com o meio a sua volta, não apenas o meio ambiente macro ou urbanístico, mas principal e vitalmente o meio ambiente construído e próximo aos quais chamamos de lares e lugares de trabalho.

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